Coletânea

domingo, junho 05, 2005

 

A estudante de psicologia

Recentemente, conversei com uma estudante de psicologia no último ano de faculdade. Tinha acabado de escrever minha crônica Sabedoria Popular e Politicamente Correto, em que falo da anti-religiosidade como um dos atuais traços de uma predominância raivosa da vontade de correção política. Em poucas palavras ela confirmou o que eu dissera, ou melhor, serviu de amostra viva ao que eu dissera.

O papo foi informal e amigável, mas deveria ser curto, já que eu e minha amiga teríamos que estar na igreja às sete horas naquele domingo e já eram quinze para as sete. Para uma visita rápida, acompanhei-a à casa da futura psicóloga, que me foi apresentada. Minha amiga contou que andara fazendo análise com uma moça que recebia seus pacientes na igreja, e que não havia gostado do modo com que ela conduziu o processo (não contou por quê). A estudante de psicologia deu o seu aval: não se deve misturar psicologia com religião, pois é mistura que sempre dá errado. E contou por sua vez que havia em sua faculdade algumas colegas que eram... freiras! (Ela mesma pareceu impressionada com o fato de freiras desejarem cursar psicologia.) Não escondeu o riso ao revelar que elas se sentiam especialmente pouco à vontade nas aulas de Sexologia e que, por fim, acabavam abandonando o curso. Percebi que o tom não era despropositado, mas parte do argumento da tese enunciada no princípio: “Não se deve misturar psicologia com religião.” Percebi, sobretudo, que o desfecho, que se estendeu à totalidade das freiras – “acabavam abandonando o curso” – apontava para o fato de uma irremediável inadequação, como se não pertencessem àquele lugar, ou não devessem nunca ter estado ali.

Na verdade, ouvi além disso. Ouvi, nas dobras do relato da estudante de psicologia, uma velada indignação ante a presença das freiras em sala de aula – indignação que não vinha dela, em particular, mas de pelo menos dois séculos de implantação de um pensamento anti-religioso na academia. Desde a Revolução Francesa, o materialismo e o humanismo são in, a religião é out. Com Freud, então, quaisquer tentativas de reconciliação entre ciência (como ele queria a psicanálise) e fé constituem macabra heresia. Como então ousavam as freiras estar ali? Será que elas não entendiam que a religião deveria curvar-se diante do fundo materialista em que se baseia toda a ciência desde Descartes? Pretendiam elas obscurecer a ciência com toda uma mística cristã indesejada? Ora, que deixassem os trajes negros lá fora! Que resolvessem antes de que lado estão!
Copiosos anos de uma anti-religiosidade militante no meio universitário engendraram o seguinte preconceito: ninguém seriamente engajado em uma religião pode exercer com a isenção necessária o ofício da psicologia. Que às avessas poderia ser enunciado assim: todo psicólogo ou psicanalista precisa ser ateu ou agnóstico conceitual. Conclusão de um processo histórico que se revela enfim puramente arbitrário, este imperativo pode ser estendido a quase qualquer área: um pensador sério não pode ter religião – se tiver, afinal ninguém é perfeito, precisa deixar suas convicções fora de suas pretensões teóricas, sob o risco de ser ignorado ou rechaçado. Se isto não é preconceito, não sei o que poderia ser.

De minha parte, acho no mínimo triste que, no intuito de refrescar seus modos de compreensão humana e aceder a um saber democraticamente disponível, ainda que muitas vezes em oposição frontal ao que crêem, as freiras tenham trombado com tamanha indelicadeza por parte de pelo menos uma de suas colegas. Já bastante separadas do mundo secular devido à natureza de seu compromisso com Deus, as freiras foram condenadas virtualmente a uma esquizofrenia mental: a profissão não se exerce onde há fé. Parece que, nesses tempos de rasgada tolerância para com opções de toda sorte, a opção religiosa é a única que não conta. Hoje, a humildade da religião, e este episódio é um grande exemplo disso, não raro é recompensada pelo sarcasmo da ciência.

Comments:
Interessante a conclusão de que fé e ambiente profissional não se podem misturar. É a triste realidade materialista/hedonista/relativista dos nossos tempos.
É justamente para contrariar esta conclusão que o Opus Dei dedica a sua missão e talvez por isso é tão execrado pela mídia.
 
Olá Norma, estou visitando seu blog pela primeira vez e gostei muito da forma como escreve.
Sou psicanalista, então seu post sobre "a estudante de psicologia" me despertou especial interesse.]
Entendo o que diz quanto ao preconceito que ainda é predominante, tanto no meio da psicologia quanto da psicanálise (que são dois meios diferentes), em relação à religião. Há mesmo. Na psicanálise, isso se deve também (mas não só) à postura do próprio Freud, que muitas vezes colocou a psicanálise acima de sua fé (ele era judeu, vc deve saber), insistindo na independência da ciência. Freud acreditava que a religião poderia srevir como muleta - não que ela se reduzisse a isso, mas poderia acabar ocupando este lugar, e obscurecendo a determinação de buscar a verdade que um cientista deve ter, mesmo que essa busca contrarie sua fé. Enfim, entendo sua colocação e mesmo para mim essa não é uma questão resolvida, porque, apesar de ser psicanalista, me é impossível acreditar que somos mero acidente, mas essa é uma questão espinhosa mesmo, e não somente fruto de preconceitos ideológicos.
Ufa! Falei, hein?! Mas parabéns pelo blog, de qualquer forma.

um abraço,

anna O.
 
Faço minhas as palavras da Ana O. E acrescento: sou retaliado por misturar psicologia e religião. Já recebi um post covarde de um 'amigo oculto-anônimo' de meu período na faculdade dizendo que faltei a algumas aulas de um professor (do qual ele supostamente deveria ser discipulo de seus dogmas)e por isso 'misturo' psicologia e religião. Quer saber? Acho que sim ... devo ter faltado...e nao senti a minima falta..
Que culpa tenho de achar que após a maçã do Éden deu-se início a todo esse processo subjetivo louco que Freud descreveu de forças opostas na mente humana?

Enfim....

Tudo a Jesus e tudo ao pensar...

Parabéns pelo blog!
 
Cara Norma, obrigado por me enviar novamente esse post. Sou Pastor Presbiteriano, estudante de Psicologia, pós graduando em Psicoterapia Psicanalítica,e não vejo problema algum nisso! Como dizia Justino e Calvino: "toda verdade é a verdade de Deus"!
 
Sou estudante de psicologia e cristão evangélico. Percebo e vivencio o que Norma escreveu. Na minha opinião, há uma intolerância religiosa tamanha que a ideia de Dawkins (de que a religião é um mal para a humanidade0 tem se disseminado grandemente. Se bem que João em uma de suas cartas falou que o espírito do anticristo já esta por aí. Vigiemos porque o terreno pode ser minado!
 
Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras? Porventura a fé pode salvá-lo?
E, se o irmão ou a irmã estiverem nus, e tiverem falta de mantimento quotidiano,
E algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos, e fartai-vos; e não lhes derdes as coisas necessárias para o corpo, que proveito virá daí?
Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma.
Mas dirá alguém: Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras. Tiago 2:14-18
ACREDITO QUE O TEXTO EM QUESTÃO TB REFLETE O MESMO COMPONENTE ÁGUA E ÓLEO QUE NÃO SE MISTURAM. INFELIZMENTE A RETORICA FILOSÓFICA EM QUE O CRISTNISMO ENVOLVEU-SE, TEM CAUSANDO AO LONGO DO TEMPO, ESSE DISTANCIAMENTO. NUM MODELO, QUASE AO BORDE DA EXTREMA SIMPLICIDADE, PODERIA INFERIR QUE FE E OBRAS PODERIAM SER CHAMADAS DE FILOSOFIA E CIÊNCIA. UM TRABALHA COM FATOS E O OUTRO COM ARGUMENTOS. UM VIVE DE RETORICA E O OUTRO DE ATITUDES. AFINAL, QUAL POSSUI A RAZÃO? PARTICULARMENTE JÁ ESTOU CANSADO DESSA RETORICA! CREIO QUE TIAGO OFERECE UM POUCO DE LUZ PRA TANTO DUELO. GRACIAS!!
 
Obrigada pelo criador deste blog...hj estou melhor mas a semana foi uma das mais tristes da minha vida...tomo antidepressivo daforin e minha medica passou um remedio novo o luvox. Parecia q eu tinha um buraco no peito...chorava tanto e apertava a mao da minha mãe com tanta força dizendo o qto a angustia batia em meu peito...foi entao q minha medica me receitou a bromoprida...meu peito doía mais ainda, minha garganta abria e fechava ...eu chorava q achava que ficaria assim para sempre ou que iria morrer...resolvi escrever pois todas as sensaçoes dos comentarios das outras pessoas acima...eu senti tb. O mais dificil é se controlar e ter força pra continuar...pq vc realmente nao consegue fazer nada...muito triste...parei com os dois remedios pq um anjo no hospital me disse q era efeito do bromoprida...nunca mais tomo remedio sem ter certeza se me fará mal ou nao...um bju pra todos e obrigada pelas historias que me ajudaram muito a continuar...
 
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