Coletânea

domingo, junho 05, 2005

 

Uma imagem da modernidade

Inspirado em Proust, Em busca do tempo perdido,
quando o narrador se extasia diante
do famoso chafariz de Hubert Robert.


Um homem vê ao longe um objeto, e o chama quase que imediatamente pelo nome, pois distingue com facilidade sua forma, seus contornos, sua beleza estática. No entanto, ao chegar mais perto, diante da miríade de detalhes que lhe haviam escapado, o que antes se oferecia aos olhos como uma presença coesa se lhe afigura subitamente como um aglomerado de informações difusas. O homem se detém por infinitos momentos em meio ao que agora lhe parece o objeto real, mais próximo ao toque, embora sem forma definida.

As arestas vislumbradas de bem perto não mais se integram à nítida imagem anterior. De posse das novas percepções sobre o objeto, o homem não se afasta novamente para as sobrepor ao que via. Atarantado – e mesmo deslumbrado –, ele se perde no desvanecimento das formas, nas sensações provocadas por esse desvanecimento, e se esquece do que o nomeava. A lembrança do objeto, ou do que o tornava objeto, é perdida. Em meio ao turbilhão que lhe excita os sentidos, o homem se fixa somente na transformação do objeto em coisa nenhuma, prometendo a si mesmo que não mais se deixará enganar por formas percebidas ao longe – e a tudo pulveriza com seus olhos de lupa. O mundo lhe parece então todo feito de caóticas partículas que a nada ordenam, obedecendo apenas a uma lei constante: a mobilidade.

E, apaziguado por essa única lei, o homem se recolhe no sono satisfeito das abstrações para sempre adiadas.

Comments:
Excelente! Voce estava muito inspirada, neste aqui.
 
Coloquei esse texto como a abertura da minha tese...
 
"Temerias o deslumbramento se tu fosses uma águia?"

antiga escritura helênica

Não sou nenhuma águia grega a cruzar os espaços celestes, mas posso lhe dizer que não temo o deslumbramento. E é por isso que lhe li hoje pela primeira vez, sem temor.

Minha cara Norma, não tenho a menor idéia de quem você é, mas é uma benção dos deuses que existam mulheres tão refinadas e inteligentes escrevendo na net. O mundo ficaria mais interessante se elas fossem menos raras.

É raro(palavra doce, não?)que eu comente em blogs, e é ainda mais raro que neles eu faça elogios exaltados. Mas sabe como é, amor a primeira lida é o diabo.

Bjos e saudações cristianíssimas de um admirador - serão quantos mais? - ex-taticamente deslumbrado.
 
Parabens Norma, e a primeira vez que leio sobre voce e me sinto privilegiada !Seguirei voce daqui dos EUA...um abraco !
 
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