Coletânea

sexta-feira, dezembro 02, 2005

 

Apresentação

Desde criança vivo às voltas com textos. No início, aplicava-me em desenhos a caneta para compor histórias em quadrinhos: não tinha muita paciência para desenhar, mas adorava elaborar os diálogos. A paixão pela literatura ganhou força quando descobri na casa da minha avó os livros infantis do Monteiro Lobato, todos já embolorados, que haviam pertencido a meu pai. Apeguei-me com prazer àquelas páginas com um cheiro todo peculiar, às poucas e lindíssimas ilustrações em nanquim de André Le Blanc que retratavam os personagens do Sítio do Picapau Amarelo, àquela ortografia já ultrapassada, com as proparoxítonas sem acentos. Gostava especialmente de Gramática da Emília, O saci, Caçadas de Pedrinho, Viagem ao céu, A chave do tamanho e Os doze trabalhos de Hércules, que lia repetidas vezes. Quando ganhei as obras completas em um só volume, aos 10 anos, já havia lido quase tudo.
Aos 11 anos descobri na escola o francês, e muito entusiasmada pedi a meu pai que me pusesse na Aliança Francesa, na esquina de casa. Segui todo o percurso até terminar o Nancy (formação de professores), em 1996. Depois de vários anos ensinando o idioma, hoje sou uma das professoras da instituição que me formou, desde 2004. Meu início profissional, porém, não foi na área de ensino: confiante nas minhas habilidades em português, sempre desejei que meu primeiro emprego fosse o de revisora, o que Deus atendeu bem cedo, aos 18 anos. Com a ajuda da mãe de um amigo - que confiou em mim e se viu às voltas com um verdadeiro carrapato agarrado às suas saias para que me indicasse à editora - , me voilà funcionária da Forense, no centro do Rio. São portanto 16 anos de trabalhos de revisão, a maior parte deles como autônoma, trabalhando regularmente para a Editora Record e outras empresas. Um tanto esporádicas, as traduções do francês serão em breve, a partir de agora, mais freqüentes na minha vida.
Foi por causa de meu trabalho como revisora que, depois de duas tentativas frustradas de cursar Psicologia e Jornalismo (cujas aulas não agüentava), decidi fazer Letras por puro prazer, o que deu certo: estou terminando o segundo ano do doutorado em Literatura Francesa, pesquisando o crítico e poeta contemporâneo Henri Meschonnic e descendo o verbo na corrente pós-estruturalista... Há alguns anos detectei, não só na Letras, mas nas áreas de humanas em geral um interesse ativo na destruição dos valores judaico-cristãos através de ataques à razão - um processo que se inicia com a demonização da filosofia clássica e opõe ao racionalismo de Descartes um subjetivismo não menos esquizofrênico, que a longo prazo torna seus partidários alheios à realidade e ao conhecimento do mundo.
Dois amigos autores foram fundamentais na solidificação e ampliação desses insights, estimulando-me e aliviando grandemente minha solidão: James Houston e Olavo de Carvalho. Meu interesse atual é o belíssimo trabalho do autor cristão René Girard, cuja obra pretendo estudar muito séria e profundamente depois do doutorado. Sou cristã evangélica há dez anos e nunca tinha visto um estudioso encarnar tão profundamente o epíteto de intelectual cristão: Girard coloca o sacrifício de Jesus no coração de seu edifício teórico, o que o torna infinitamente valioso para mim.
Mas, em meio a todas essas atividades de ensino, revisão, tradução e pesquisa, sempre digo a todos os meus amigos: desde pequena vejo-me como escritora, e isso me preenche perfeitamente bem. Escrever é o que sei fazer de melhor. Também gosto de cantar e tenho uma boa queda para a música, mas o manejo das palavras é constitutivo em mim. Não são raras as vezes em que me pego escrevendo mentalmente, em todos os lugares por onde passo. Encontrei no blog um modo maravilhoso de exercer essa obsessão - e gosto o suficiente de Nelson Rodrigues a ponto de me identificar com ele no amor à escrita, que não deixa de ser uma das expressões do amor à verdade.

Comments:
Normita, cá estou, envolta em leituras e algumas bobagens agradáveis.
Seu descobrimento das letras e de sua vocação para elas se deu bem cedo, provando que era da sua natureza, já estava escrito nas estrelas. Então, a partir daí, surgem as oportunidades, as circunstâncias que se oferecem em nossa vida, comprovando que nossa percepção lá de trás estava correta.
É maravilhosa a sensação de autoconhecimento para, depois, conseguir materializar isso, não desperdiçar seu talento.
Precisamos de ordenamento, tanto exterior quanto interior, não adianta. Alguns, precisam ordenar-se antes para enfrentar a vida. Precisei conhecer-me, mas qualquer problemão me deixa suspensa. Em resumo, meu bem-estar e segurança emocional dependem que minhas necessidades sejam atendidas (Lua na casa II).

Beijo, amiga!
 
"Tia Norma", o seu blog é surpreendente. A sua análise é assaz cristalina. Politicamente, só pra me tirar a dúvida, onde você se situaria? Tente este site: http://politicalcompass.org/
 
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