Desde criança vivo às voltas com textos. No início, aplicava-me em desenhos a caneta para compor histórias em quadrinhos: não tinha muita paciência para desenhar, mas adorava elaborar os diálogos. A paixão pela literatura ganhou força quando descobri na casa da minha avó os livros infantis do Monteiro Lobato, todos já embolorados, que haviam pertencido a meu pai. Apeguei-me com prazer àquelas páginas com um cheiro todo peculiar, às poucas e lindíssimas ilustrações em nanquim de André Le Blanc que retratavam os personagens do Sítio do Picapau Amarelo, àquela ortografia já ultrapassada, com as proparoxítonas sem acentos. Gostava especialmente de
Gramática da Emília,
O Saci,
Caçadas de Pedrinho,
Viagem ao céu,
A chave do tamanho e
Os doze trabalhos de Hércules, que lia repetidas vezes. Quando ganhei as obras completas em um só volume, aos 10 anos, já havia lido quase tudo.
Aos 11 anos descobri na escola o francês, e muito entusiasmada pedi a meu pai que me pusesse na Aliança Francesa, na esquina de casa. Segui todo o percurso até terminar o Nancy (formação de professores), em 1996. Depois de vários anos ensinando o idioma, hoje sou uma das professoras da instituição que me formou, desde 2004. Meu início profissional, porém, não foi na área de ensino: confiante nas minhas habilidades em português, sempre desejei que meu primeiro emprego fosse o de revisora, o que Deus atendeu bem cedo, aos 18 anos. Com a ajuda da mãe de um amigo - que confiou em mim e se viu às voltas com um verdadeiro carrapato agarrado às suas saias para que me indicasse à editora - , me voilà funcionária da Forense, no centro do Rio. São portanto 16 anos de trabalhos de revisão, a maior parte deles como autônoma, trabalhando regularmente para a Editora Record e outras empresas. Um tanto esporádicas, as traduções do francês serão em breve, a partir de agora, mais freqüentes na minha vida.
Foi por causa de meu trabalho como revisora que, depois de duas tentativas frustradas de cursar Psicologia e Jornalismo (cujas aulas não agüentava), decidi fazer Letras por puro prazer, o que deu certo: em 2007 doutorei-me em Literatura Francesa, pesquisando o crítico e poeta contemporâneo Henri Meschonnic. Há alguns anos detectei nas áreas de humanas em geral um interesse ativo na destruição dos valores judaico-cristãos através de ataques à razão - um processo que se inicia com a demonização da filosofia clássica e opõe ao racionalismo de Descartes um subjetivismo não menos esquizofrênico, que a longo prazo torna seus partidários alheios à realidade e ao conhecimento do mundo. Infelizmente, essa fragmentação também acontece na Letras.
Hoje, tenho encontrado em obras de autores conservadores o esforço oposto, qual seja, de busca da unidade de conhecimento, com base em uma cosmovisão cristã cada vez mais abrangente, valorizando a autoridade espiritual (e não a iconoclastia desvairada), as tradições (e não as rebeldias vazias), a continuidade (e não a ruptura). Por isso, além de cristã (presbiteriana), creio que posso me definir como conservadora. Assim, em lugar de Marx, Freud e Nietzsche, estudo Edmund Burke, Russell Kirk, Alain Besançon, T.S. Eliot, Hannah Arendt, Paul Johnson; e, na teologia, em lugar de Philip Yancey e Eugene Peterson, estudo João Calvino, Abraham Kuyper, Gordon Clark, C.S. Lewis. Cada um desses gigantes tem sido uma descoberta maravilhosa que em muito me auxilia em minha formação intelectual.
Em meio a todas essas atividades de ensino, revisão, tradução e pesquisa, sempre digo a meus amigos: desde pequena vejo-me como escritora, e isso me preenche perfeitamente bem. Também gosto de cantar e tenho uma boa queda para a música, mas o manejo das palavras é constitutivo em mim: escrever é o que melhor sei fazer, algo que me absorve por horas, mais que qualquer outra atividade prazerosa. Este blog é uma tentativa de exercer de modo constante o que julgo ser um dom, apresentando-o ao Deus da Bíblia, a quem me converti há mais de dez anos, para que possam ser abençoados aqui muitos que O buscam com sinceridade.
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