Coletânea

sexta-feira, março 09, 2007

 

O Gulag de Fidel

ARMANDO VALLADARES
Wall Street Journal, 5 de Março de 2007, p. A16


Como milhares de cubanos, fui preso na calada da noite. A polícia de Fidel Castro invadiu a casa de meus pais, apontou uma arma para a minha cabeça e me levou embora. Era o ano de 1960 e eu tinha 22 anos.

A notícia de que o ditador cubano está gravemente doente faz com que eu me recorde de meus anos de prisão. Acredito que todos aqueles que foram prisioneiros políticos, como eu, conhecem o legado de Castro melhor que ninguém. Por 22 anos, estive preso nesse vasto sistema carcerário, confinado a uma ilha-gulag, por crimes que não cometi.

Como a maioria dos cubanos em 1959, aclamei a vitória de Castro sobre Fulgencio Batista, um ditador que mantinha relações amigáveis com os EUA. Castro se arvorou inimigo de todas as ditaduras. Ostentando uma cruz no pescoço, ele jurou que as eleições em Cuba seriam livres e justas. Porém, como provaram as cinco décadas de poder ininterrupto, ele enganou a todos e substituiu a ditadura de Batista por sua própria versão, mais sanguinária.

Quando, em 1959, apareceu no programa "Encontro com a Imprensa", Castro respondeu a Lawrence Spivak: "Democracia é de fato meu ideal... Não sou comunista... Não tenho dúvidas se devo escolher entre democracia e comunismo." Quando Castro começou a deixar mais clara sua simpatia ao comunismo, comecei a me pronunciar publicamente contra essa mudança ideológica entre as pessoas do meu trabalho no banco dos correios.

Na época, o governo havia distribuído cartazes com o slogan: "Se Fidel é comunista, ponha-me na lista. Ele está certo." A frase era onipresente, seja em quadros de funcionários, seja sob a forma de adesivos. Quando funcionários do banco mandaram que eu afixasse o slogan em minha mesa de trabalho, recusei. Quando perguntaram se eu tinha algo contra Fidel, respondi que, se ele era comunista, eu tinha sim. Eu não queria me tornar um símbolo de dissidência política. A decisão havia sido tomada naquele dia.

Treze dias depois da minha prisão, fui oficialmente acusado de ameaçar a segurança nacional, mesmo sem nenhuma evidência contra mim. O sistema jurídico sob o governo de Fidel Castro era uma zombaria do estado de direito; membros do tribunal eram apparatchiks do Partido Comunista que sentavam-se colocando as botas em cima das mesas, fumavam charutos e liam revistas em quadrinhos. A presença deles era só formalidade; o veredito já estava pronto. Não me permitiram advogado.

Sentenciaram-me a 30 anos de prisão como "conspirador potencial". Dois homens na mesma sala do tribunal, falsamente acusados de terem atirado em um porta-voz do governo, foram executados no paredão. Quando o advogado deles (com quem se encontraram apenas minutos antes) rogou ao promotor que a sentença fosse mudada, foi-lhe respondido que eram ordens, pouco importasse os motivos, como medida de profilaxia social.

Na prisão, quando os guardas sentiam ganas de nos castigar, eles nos colocavam em gaiolas e andavam em volta atirando baldes de urina e excrementos para dentro, até que ficássemos encharcados. Também costumavam praticar tiro ao alvo nos prisioneiros. De fato, foi dessa forma que morreram assassinados Alfredo Carrión e Diosdado Aquit . Muitos dos homens que Castro prendeu, torturou e matou tinham sido seus companheiros na derrubada de Batista. Mas a maioria deles eram inocentes eliminados na psicótica busca de Ernesto "Che" Guevara por aqueles que ele e Castro chamavam "o novo homem".

Sem freios, a ditadura de Castro deixou impressa sua marca de crueldade. Um prisioneiro do meu bloco, Julio Tan, recusou-se uma vez a obedecer à ordem de capinar o terreno. O guarda que dera a ordem espetou-o com a baioneta, outro o atingiu com uma enxada e logo Tan foi assolado por um grupo grande deles, espancado e deixado sangrando até a morte em questão de minutos. Um amigo, Pedro Luis Boitel, líder estudantil e corajoso oponente de Batista, iniciou uma greve de fome no ano de 1972, em protesto contra os maus-tratos. No 49º dia de sua greve, Castro ordenou pessoalmente que lhe tirassem a água. Boitel morreu de sede em uma terrível agonia, 5 dias depois.

O terror era a arma primeira de Castro. As táticas usadas contra os inimigos incluíam o uso de drogas, para que os prisioneiros perdessem toda noção de tempo e espaço, e torturas dos mais variados tipos envolvendo fobias a animais, como répteis e ratos: consistiam, por exemplo, em vendar os olhos dos prisioneiros, pendurá-los pelos pés e baixá-los a fossos onde lhes diziam haver crocodilos. Ou então, usavam-se cães de guarda com os dentes removidos: eles eram colocados atrás dos prisioneiros com as mãos atadas até que os cães os atacassem, geralmente atingindo primeiro seus genitais. Tudo isso está extensivamente documentado por uma delegação da ONU, cujas evidências encontram-se em Genebra.

O legado de Castro terá sido muito semelhante ao de Stálin na Rússia, Pol Pot e Ieng Sari no Camboja, Hitler na Alemanha. Serão as memórias do número desconhecido de vítimas, campos de concentração, torturas, assassinatos, exílio, famílias destruídas, mortes, lágrimas, sangue. Castro passará à história como um dos ditadores mais cruéis – um carrasco de seu próprio povo.

No entanto, esse legado macabro não deixará de fora o padrão de duplicidade de governos estrangeiros, intelectuais e jornalistas que, enquanto lutam ferozmente contra as violações dos direitos humanos quando vindas de ditaduras de direita, aplaudem Castro. Até o dia de hoje, muitos desses intelectuais trabalham como apologistas e cúmplices na subjugação do povo cubano. Rafael Correa, o recém-eleito presidente do Equador, declrarou que não há ditadura em Cuba. Evo Morales, presidente da Bolívia, considera Castro seu mentor e já mostrou que pretende silenciar a bala os críticos de seu governo. A Venezuela, que já foi uma democracia, é a nova Cuba, com uma população cada vez maior de prisioneiros políticos.

Fidel Castro fez cerco a Cuba e a fechou, no final da década de 1960, segundo sua adesão ideológica aos sistemas de governo mais assassinos que a humanidade já sofreu. Hoje, os caudilhos da América Latina expressam abertamente seus ideais comunistas. "Sou da linha Trotskista: revolução permanente", declarou o presidente Hugo Chávez em janeiro deste ano.

Há portanto algo que podemos aprender com Fidel Castro: o impulso totalitário sobrevive até mesmo a seus mais endurecidos – e destrutivos – praticantes.



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