Coletânea

Domingo, Junho 05, 2005

 

Bromoprida e subjetivismo

Immanence without transcendence cannot be "lived",
it can only make descriptions and theorise
.
James Houston

Ao escrever sobre Descartes, o professor Olavo de Carvalho procura retraçar o paradoxo de uma teoria do conhecimento que pretende instaurar a dúvida radical como único e seguro ponto de partida. Ao anunciar algo como só sei que nada sei – mais cartesiano que propriamente socrático – , Descartes realiza um verdadeiro malabarismo ao tornar a dúvida em certeza fundadora após um movimento anterior de cisão: o sujeito do conhecimento ergue os pés do mundo conhecido e dele se retira, colocando-o “entre parênteses” e fundando-se em superioridade sobre o objeto que quer conhecer. Assim, a divisão entre sujeito e objeto para o processo de conhecimento é que permitiria ao sujeito afastar-se para duvidar, com base em uma pressuposição: a de uma visibilidade do mundo sem que se esteja implicado nele. No entanto, como pode fazê-lo o homem, se nunca esteve fora do mundo?, indaga-se o professor. E eu completo aqui: como pôde achar que o fazia Descartes? Pois a experiência de estar fora do mundo, realmente fora do mundo, geraria uma angústia intolerável para qualquer um.
Não tiro do nada essa observação. A depressão do astronauta Aldrin quando voltou da lua não se deveu simplesmente, creio eu, a um anticlímax depois de ter realizado um dos maiores feitos de que a humanidade foi capaz. Depois de ter pisado na lua e de ter visto o planeta em que vivemos ao longe, uma imensa bola azul no espaço em vez da tranqüilizadora bola branca, imagino que tenha balbuciado palavras semelhantes às que exclama o solitário personagem de David Bowie, major Tom, quando em órbita em torno da Terra: “Planet Earth is blue and there’s nothing I can do...” Como se preparar o suficiente para tal deslocamento, como evitar sensações de medo e impotência? Mas, claro, expedições de caráter científico não permitiriam o reconhecimento de tais fraquezas. Aldrin o expressou quando voltou, por meio da depressão: após ver-se fora do mundo, precisou de algum tempo para entrar adequadamente nele de novo.
Em um desejo de evadir-se, muita gente já induziu seus próprios estados de “fora do mundo” por meio da ingestão voluntária de substâncias químicas. Mas o que dizer de um deslocamento absolutamente involuntário? Deste, sofri três vezes, e vou relatar essas três experiências aqui.
No entanto, antes de começar, devo dizer que há controvérsias quanto à bromoprida que, não sendo médica nem farmacêutica, não posso elucidar. Em uma modesta pesquisa pessoal, recolhi relatos de pessoas que experimentaram efeitos parecidos com os meus, mas também ouvi profissionais abalizados me dizendo que a bromoprida não costuma causar o que descrevi. Portanto, poderia ser bromoprida, fluoxetina ou qualquer outra substância; o que importa, para mim, é a sensação abismal de estar fora do mundo que me acometeu nas três ocasiões em que a tomei.
Na primeira, houve uma depressão indizível; já era de noite. Lembro que me enrolei na cama e me forcei a dormir, esperando que o dia trouxesse o bem-estar de volta. Nunca havia experimentado nada parecido, porque não me recordo, antes disso, de ter tido o seguinte pensamento que me ocorreu naquela noite: como, em algum dia da minha vida, eu pude me sentir bem? Como pude viver meu dia-a-dia, levantar, comer, sair para trabalhar?
A partir de então, eu nunca mais poderia deixar de refletir nesse estado de alma, que havia conseguido até mesmo apagar, ainda que por algumas horas, toda memória emocional de normalidade.
A segunda vez foi a pior. Administraram-me bromoprida por meio de intravenosa, no soro, depois de uma intoxicação alimentar. Alguém viria me buscar dentro em pouco. Findo o soro, eu saí da maca e tentei me sentar no banco de espera, mas qualquer posição ali me era insuportável. Era como se houvesse uma inadequação entre mim e meu corpo, entre mim e qualquer objeto que eu tentasse reconhecer e tocar. Era como se tudo à minha volta gritasse silenciosamente que eu não estava ali. Fui então tomada de um pânico quieto. Imaginei que minha saúde não andava boa, imaginei o que aconteceria se me acometesse algo mais sério e eu tivesse que depender de hospitais, de visitas. No auge do desespero, perguntei-me quem poderia me valer. Não havia Deus: naquele momento eu era um vazio flutuando em algum vazio maior. O antimundo à minha volta gritava a inexistência de Deus em uma espécie de ateísmo radical e involuntário que havia me possuído. Sem Deus, alternativamente comecei a repassar na lembrança todas as pessoas que eu conhecia e que sabia gostarem de mim, meus pais, meus amigos, para assegurar-me de que elas me valeriam, elas não deixariam que eu perecesse em meio a doença e solidão. Mas a evocação de cada uma delas de nada me confortou. A cada rosto familiar, eu era ferida pela irreparável impossibilidade de que pudessem fazer algo por mim.
Quando minha amiga chegou, eu já estava morta. Subjetivamente, não havia sobrado muito no processo. Caminhei com ela até a casa sem articular palavra. Entrei, e ela me perguntou se eu queria que ela ficasse ali, dormisse ali comigo. Eu respondi que tanto fazia. Não podia responder outra coisa. Depois de ter experimentado solidão tão absoluta, não havia sentido em desejar ou não sua presença. Ela se foi bastante chateada, mas creio que eu não poderia, daquele jeito, ter-lhe explicado o que se passava comigo.
Na terceira, bem, a terceira foi mais suave, muito mais suave. Pode-se dizer que, em comparação com a segunda, eu tirei de letra. Mas houve um problema com que eu não contava: durou mais. Novamente no hospital, administraram-me a bromoprida e poucos minutos depois eu já me sentia invadida de uma agitação intolerável. Implorei para o médico me deixar sair (ele riu!), menti que não estava mais tonta, ele me deu o atestado, voei pela porta e peguei um táxi.
No carro, achei que o dia lindíssimo me consolaria, mas não me consolou. Percebi que me sentia miserável, um pobre-diabo, separada para sempre do mundo dos mortais. Os objetos que eu tocava e via – a maçaneta da porta, os prédios, a praia, as montanhas – perdiam a densidade e o valor que o cotidiano lhes atribuía, transformando-se em um opaco cenário de pesadelo. Indaguei como tudo ao meu redor parecia vivo, mas eu não conseguia participar dessa vida. A vida, como vêem, passou a ser “essa vida”, um dêitico indicando que, ao apontar para ela, identifico-a como algo fora de mim.
De resto, cheguei em casa e me forcei a dormir durante toda a tarde, e depois a noite inteira. Só me libertei de verdade da sensação macabra dois dias depois, com meus alunos, ao perceber que havia conseguido entrar na vida por completo. Antes disso, o sabor de estar “um pouco” fora me consumia, mas dessa vez eu soube ser paciente – e sabia que Deus estava comigo.
De onde tiro a conclusão: o mero sentir-se fora do mundo é insustentável. Realmente fora do mundo, quero dizer. Sem a sensação de euforia que deve acompanhar alguns estados induzidos por alucinógenos, sem a grogueira de uma bebida, de uma anestesia forte. Estar separado da vida e continuar lúcido equivale, acredito, a morrer e continuar vivo. Podemos nos perguntar por que ainda estamos ali, já que tudo parece ter perdido a capacidade de mostrar-se coerente. Perdemos Deus, pessoas, coisas. Como se rompido para sempre o laço que nos amarra ao mundo e nos proporciona sentido e pertencimento.
Não foi o que aconteceu com Descartes – não que soubéssemos. Ao que me consta, prosseguiu tranqüilamente com sua filosofia, com os cuidados de praxe que a instituição religiosa da época inspirava. Sem implicar-se por inteiro no sistema que criou – como viver permanentemente na dúvida radical? – , teria elaborado para si nada mais que a ficção de se colocar fora do mundo. Tirou daí, acredito, todo um modo de racionalizar a vida que já não corresponde mais à vida, mas é unicamente mental. Ele não sofreu por estar fora da vida, porque realmente não estava. Mas toda a sua construção filosófica se baseia nessa ruptura de estados mentais e emocionais, de lógica e experiência – ruptura que não por acaso caracteriza o subjetivismo reinante nos estudos universitários, hoje, com mais força que nunca.
Toda a filosofia moderna, por assim dizer, é cartesiana, ao desejar um esquema abstrato que proporcione a vertigem de uma gnoseologia total em vez de uma tentativa de conhecimento parcial do mundo e no mundo. Ao comprar a idéia de Descartes, o pensamento moderno quer inaugurar a última e definitiva forma de filosofar, para isso pretendendo-se o filósofo um puro “olho”, independente e isento. Porém, em tudo isso há como que uma brincadeira, uma proposta que poderia talvez ser formulada assim: vamos brincar de nos colocar fora da realidade e imaginar tudo de novo? Vamos dizer que só existe o que a gente pensa que existe? Como brincadeira, isto pode ser feito sem maiores conseqüências, pois continua-se no controle do processo – o real está ali fora, pacientemente à espera. A ficção ganha contornos perigosos quanto mais crê nela o pensador; mas, ainda assim, não há sofrimento em uma ruptura apenas mental com o mundo.
Eu pergunto então: se Descartes tivesse experimentado os efeitos da bromoprida, será que basearia nessa divisão sua filosofia? Se, em um só dia de suas alegres vidas, professores e estudantes universitários que se entusiasmam com a proposta subjetivista tivessem sido jogados por inteiro – não só mentalmente – no abismo de uma separação entre consciência e realidade, será que não correriam de volta assim que possível? Se soubessem o que é estar fora do mundo sem o terem desejado, filósofos e aspirantes a filósofos retornariam com urgência do projeto subjetivista, rogando com humildade a quem detém a chave de todo sentido uma nova chance de um processo de conhecimento do mundo em que não se alienassem de si mesmos.

Comments:
Deprived of a mother to love him
Descartes divorced
Mind from Matter


Sem mãe capaz de amá-lo
Descartes divorciou
A Mente da Matéria


W.H. Auden
Tradução João Paulo Paes
 
"Só sei que nada sei" é de Sócrates, não de Descartes. Está na "Apologia de Sócrates", de Platão.

(Sugestão técnica: veja se a fonte "verdana" não torna a leitura do texto visualmente mais agradável na tela do computador)
 
Oswaldo, foi isso que eu quis dizer: foi Sócrates quem falou, mas as pessoas entendem a frase fora do contexto, cartesianamente.
Eliot, esse poema é maravilhoso!
 
Olá. Procurei no google algo relacionado à bromoprida e depressão, e achei esse seu texto. Eu tenho exatamente os mesmos sintomas (uma leve depressão) algumas horas depois de tomá-la. Você confirmou com exames a sua suspeita de o bromoprida te fazer mal? Se sim, contatou o fabricante?
aguardo resposta
larissafg21@hotmail.com
 
Bromoprida causa, sim, em algumas pessoas, ansiedade generalizada e agitação psicomotora, que gera um mal-estar psíquico bem grande. Principalmente pela via endovenosa, se aplicada muito rapidamente e sem diluição.

Mas, veja bem, a experiência subjetiva é sua, e não da bromoprida. Sentir-se fora do mundo, desacreditar em Deus ou nas pessoas, isso não é "regra" do efeito colateral da Bromoprida. Cada um remete à sua própria carga emocional e subjetiva ao lidar com uma situação de mal-estar psíquico.

Espero ter esclarecido um pouco.

E evite a Bromoprida (Digesan).
 
Obrigada, Maciel!
Sim, nessa época eu não estava vivendo um grande momento com relação à fé. Por isso, você tem razão quando diz que os conteúdos psíquicos são meus.
Agora você me deixou curiosa quanto às outras formas de mal-estar psíquico que a bromoprida pode causar. Será que existe uma pesquisa a respeito?
E pode deixar, sim, ficarei longe de Digesan! ;-)
Grande abraço!
 
Achei incrível esse texto, também não posso fazer uso do bromoprida, demorei muito para descobrir que as sensações de inexistência, desespero, sensação iminente de morte e outros sentimentos depressivos eram por causa do tal medicamento. Tomava bromoprida toda vez que sentia enjoos, o que era frequente algum tempo atrás. Me lembro que numa viagem para um acampamento acordei passando mal, e logo mandei pra dentro um comprimido, dps de alguns minutos começou a sensação, achei q era por causa do enjoo, e fui parar na enfermaria, lá a enfermeira aplicou digesan intramuscular, passei a noite toda andando pra lá e prá cá, nada pra mim estava bom, eu só queria ir pra minha casa ver a minha mãe, nunca vou me esquecer daquele dia, minha vontade era correr kilometros a fim de encontrar algo que me confortasse. Hoje em dia em caso de enjoos só tomo domperidona. Bom quis aqui expressar um pouquinho do que passei com essa tal de bromoprida, e o estado subjetivo que eu alcancei. Abraços
 
Que bom ler este texto vivi a mesma angustia sem motivo , pelo contrário; a primeira vez eu não estava se quer longe da felicidade. Tinha acabado de passar no vestibular minha vida era so alegria, ate tomar esse remedio e bem um dia antes da matricula eu me senti como se nada no mundo valesse a pena ou fizesse sentido, então comecei a perceber as sensações fisicas e tomei mais uma vez ao repetir vi que era o remedio. Aconteceu mais uns dois anos quando fui internada com outra crise de gastrite e agora mais uma vez comprei o remedio e nao me dei conta que era o mesmo. Deveria tira-lo de circulação é a pior sensaçao que ja tive na vida
 
Imagine só, uma pessoa que sofre de depressão e toma esse medicamento?! Pois é. Eu tenho depressão, e ela está controlada, uso medicamento e consigo manter uma vida equilibrada. Mas ontem eu estava sentindo um pouco de enjôo, e mesmo lendo a bula com a recomendação: "este medicamento não deve ser administrado juntamente com algumas substâncias que agem sobre o Sistema Nervoso Central". Tomo Fluoxetina para depressão, mas quando percebi que o enjôo estava piorando, mandei a Bromoprida para dentro, pensado que o máximo que poderia acontecer, era ela não funcionar, ou seja, achei que a Fluoxetina poderia cortar o efeito da Bromoprida. Mas o que ocorreu foi justamente o contrario! Me senti na "fossa" ontem, duas horas depois de ter tomado a Bromoprida, fiquei ansiosa, angustiada, nervosa, não conseguia parar quieta! Parecia até que eu sofro de Sindrome das Pernas Inquietas. Fui dormir acabada, me sentindo vazia e sem ânimo, pensei: "será que terei que reajustar a dosagem da Fluoxetina? Parece que vem outra crise braba por aí!". Quando acordei hoje, ainda me sentindo "vazia", foi que eu me recordei da bula da Bromoprida, vim pesquisar na internet e encontrei esse blog! Está tudo explicado! NUNCA mais quero conta com essa porcaria. Prefiro ficar sentindo meus enjôos, que graças a Deus, não são muito comuns!
 
Oi, Sandra! Obrigada pelo comentário. Fico feliz que meu texto - que no final das contas é mais filosófico que qualquer outra coisa - esteja ajudando tanta gente a entender e evitar os efeitos indesejáveis da alergia à bromoprida.
Abração!
 
É possível que o remédio afete pessoas que já têm uma certa predisposição. Eu parei de tomar medicação pra depressão em março de 2009, depois de três anos de tratamento. Foi uma vitória incrível e me deixou muito, muito feliz. Na sexta-feira tomei a tal da bromoprida na veia e depois comecei a tomar remedinho. A sensação de falta de sentido da vida que me acometera no auge da depressão voltou COM TUDO. A depressão continuou conforme eu tomava o remédio via oral, mas o desconforto psicomotor só deu com a administração intravenosa no hospital. Foi um alívio olhar esse artigo. Já escrevi pra minha psquiatra, vou escrever pro laboratório e avisar o médico que me atendeu no HU.
 
Esta postagem foi removida pelo autor.
 
Gentem, parece mentira que um remedinho assim faça um estrago tão grande. Eu costumava sentir-me assim quando tomava o Plasil, mas hoje cedo, quando tomeu apenas 30 gotinhas do remédio (pediátrico)meu mundo caiu. Me senti muito mal.O pior é que meu filho de 1 ano e 7 meses tem tomado esse medicamento de 6/6horas, senti ele meio caidinho mesmo. Que estranho. Nem sei o que fazer !
 
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